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Thomas More e a utopia

Porque imaginou More a ilha utópica com tantos traços de Inglaterra? Porque não a descreveu directamente? Na verdade as intenções do futuro chanceler não são fáceis de descortinar. A sua personalidade é forte e presencial e sobretudo complexa. More misturou com plena consciência disso as críticas e louvores ao seu próprio país com transposições e invenções fantasistas. Imprimindo a tudo isto a sua marca pessoal, espírito rico e subtil, com muito humor. More, tal como Erasmo, é um humanista cristão, altamente disciplinado no helenismo e na patrística.
Revelam-se em More duas influências importantes no seu pensamento, a utopia da antiguidade representada por Platão e a mística da cidade de Deus de S. Agostinho.

More pretendeu antes de tudo "um regresso às fontes", porque segundo o próprio, a erudição liberta da superstição, que possibilitaria ao catolicismo reinante as não degenerescências. More era um adversário das deformações do pensamento cristão através de obras de segunda mão e de segundo plano, mostrava-se mesmo hostil ao tomismo, especialmente na sua forma inglesa: o escotismo. É também um crítico, muito respeitoso mas severo, dos abusos cometidos pela igreja de então. Mas ele próprio não deixa de abordar o tema. Segundo ele os utópicos são epicuristas no verdadeiro sentido do termo, isto é, para eles "nenhum prazer é comparável à felicidade de possuir uma consciência virtuosa e um coração puro." Mas o futuro santo não faz deles cristãos, praticam a religião natural, diz More que é a melhor possível na ausência de revelação.

More mostra-se neste aspecto um antagonista dos reformadores do século XVI e dos heréticos do século XVII, como Calvino e Jansénio, embora o quisessem ligar aos teólogos protestantes na realidade, o seu pensamento moldava-se na concepção tradicional do catolicismo que considera que o Homem possui, necessariamente, por essência, um valor próprio e é livre na escolha da sua salvação. Nem tão pouco More prefere a religião natural, e nem opõe a natureza à graça como fazem os protestantes. À semelhança de Erasmo, Colet, Pico de Mirandola, Lefévre, Ficino, Etaplos e outros, More foi um grande humanista defendendo com convicção uma natureza humana susceptível de grandeza, de progresso e de santidade, ainda que diminuída pelo pecado considerando também que a alma conserva, da sua primitiva rectidão, uma inclinação natural para o bem e para a virtude.

A este respeito More acrescenta algo de realmente novo a tolerância e a liberdade, mas não uma tolerância e uma liberdade qualquer, ilimitada, More dizia que o homem nasce para a filosofia  e para a virtude; não pode ser constrangido a alcançar estes bens sem ser através das suas inclinações naturais e dos cuidados atentos da educação. More, de acordo com as tendências do seu tempo, proíbe a propaganda de ideias que ele considera perniciosas mas permite que se discuta com os descrentes. Por outro lado - e isto é uma das provas do seu humor e um testemunho da sua tolerância - existe na ilha um neófito cristão que é expulso por ter dado provas de um proselitismo imoderado.

Mais vale mudar os homens e os costumes que as instituições, é preferível reformar a vida interior do que a vida pública, diz More, e por consequência indica, descreve, sugere. A utopia embora seja uma ficção foi muito bem pensada usando na perfeição ora a semelhança ora o contraste, o que revela um esforço para tentar conquistar os espíritos. E como a utopia tem como condição essencial a honestidade intelectual, a firmeza de carácter e a independência do juízo, ela ajudou a que More, chegado o momento, se oponha às atitudes imoderadas do príncipe e pronuncie um irredutível Num Possumus.

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